quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Série Pequenas Histórias #1

[pra começar, queria deixar claro aqui que essa série "pequenas histórias" eu escrevi em 2004, eu tinha 14 anos... 14 fucking anos! toda vez que releio eu penso "caralho, isso é bom de uma forma que nunca mais vou ser boa na vida" sei lá porque... pra mim é bom porque é naif, é algo que escrevi sem pensar muito, e na real, praticamente não faz sentido nenhum. mas eu gosto. e vou continuar gostando e achando que preciso voltar a isso de alguma forma - assim como picasso desejou toda a vida voltar a desenhar como criança]




Uma filha


Ao ver a luz, se assustou. Entrava na atmosfera pela primeira vez. Sugou um pouco do ar e ele entrava facilmente em suas narinas e se transformava em seu pulmão. Respirar era sim, algo muito agradável. Estava como veio ao mundo, aliás, tinha acabado de vir ao mundo.

-Querido, este é o dia mais feliz da minha vida! – O pequeno ser ouvia a voz de uma mulher.

-O meu também... – Respondeu o homem.

O pequeno ser não entendia porque amava aquelas pessoas que nunca tinha visto na sua vida de 20 segundos. Alguém o levantava de ponta-cabeça, e lhe batia até que começou a chorar. O levaram para longe daquelas pessoas que amava. “Amor”.

Descobriram que era menina, aquele ser, quando a trouxeram de volta. Os dois pais estavam tão extasiados que esqueceram do pequeno engano do médico.

-... É uma menina, nunca teria imaginado!

-Que exagero, senhor médico! Ou é menino ou menina! Se você se enganasse quanto a ser menino só poderia ser menina... –Disse o pai, que se perdia entre suas palavras.

Quando o médico e a enfermeira foram embora, a mãe também se perdia na lindeza de sua “cria”.

-Você acha que eu devo colocar a roupinha azul ou a rosa?

-Tanto faz, Helena...

-Tanto faz nada! A Yasmin tem que estar linda para as visitas!

-Mas ela é linda do jeito que é.

-Muito obrigado por me ajudar a decidir!

-Como se fosse difícil escolher entre duas opções – Respondeu o pai, se estressando.

Pronto. Desde os primeiros momentos da vida da garota, estava a presenciar hipocrisia. O mal do mundo sempre começava com as coisas mais simples.

E como se subisse cada degrau, a menina alcançou os oito anos. Amava todos, mas ainda não sabia porque. “Mamãe, te amo... Papai, te amo”. Como se palavras significassem mais do que o que nós sentimos.

-Mas se você não falar, como é que nós iremos saber? – Dizia a mamãe quando a garota perguntava.

Respostas simples para perguntas simples.

Yasmin crescia, mas de algum jeito não entendia a razão das coisas. De manhã ia para a escola, almoçava na casa da avó, brincava com seu irmão mais novo. “Um dia eu vou te ensinar as coisas que aprendi até hoje... As coisas que não me ensinaram e que eu tive que descobrir sozinha” ela falava para seu irmão, que mal podia pronunciar as palavras corretamente.

-Quantos anos você têm?! Quatro!!! Porque não consegue falar certo?

-Quéio cocolateeeee!

Às vezes, tarde da noite, ainda acordava, chorava sem saber. Lembrava que a escola era uma merda. Lia livros idiotas, falava com pessoas idiotas... Tudo era uma grande merda.

-Mãe, eu quero pintar meu cabelo de azul!

-Vai sonhando, meu bem...

“Eu queria ser um peixe no oceano... Queria poder nadar, mas teria medo dos tubarões. Então eu queria ser um pássaro no céu, e voar para longe. Não sei para onde voaria, talvez para outro lugar longe daqui. Porque às vezes acho que ninguém me ama de verdade”.

-Eu queria ser livre... Queria não ser obrigada a amar as pessoas.

Conversava com sua tartaruga Humberto.

-Porque o nome dele é Humberto?

-Porque ele é homem, é o meu namorado.

-Garota, você é perturbada.

-Cala a boca, isso é inveja! Sai daqui que o Humberto é só meu!!! HAHAHA!

Começaram a achar que ela estava tendo algum problema. O pai perdeu o emprego... A mãe achava que ele era um fracassado. Lembrava-se de filmes parecidos. A sua vida parecia um filme.

“Se eu morrer, eles podem fazer um clone... Não vai ser eu que estarei sofrendo, mas será eu que estará ali dizendo que os ama...”.

Numa noite conheceu Daniel, era uma daquelas festas estranhas que ela se forçou a ir. Mas como sempre as noites de festas não eram para ela. Nenhum dia e nenhuma noite seria dela. Apenas seus sonhos seriam seus.

“Por que eu sou assim? Eu simplesmente fugi... O mundo não deveria ser tão injusto assim...”.

-Por que você fala desses seus clones de você?

-Olha Humberto... Eu não sei... Minha mãe me chama de filha...

-Humberto não... É Daniel, esqueceu?

Dias depois a sua avó morreu. Um choque? Talvez... Chorou por um tempo, só...

-Você não a amou enquanto vivia, morreu de desgosto – Disse a mãe, a culpando.

-E o irmão, mãe? Ele também não era assim?

-O seu irmão é pequeno! Ele sabe amar diferente de você!

“Por que todos pensam que eu deveria te-la amado, mas antes eu que sabia que amava todos e não percebia”.

Diziam tanto que acabou acreditando nas próprias vozes que sussurravam em seu ouvido o que acharam que era verdade. Engoliu tudo porque se ela discutisse, seria pior...

As noites eram sempre escritas, as mesmas. Fechava os olhos e via em suas pálpebras o doce sorriso de sua avó. Os olhos se fechavam calmamente e de repente o coração deixou de bater. A voz de Yasmin não saía.

-Vó... Este é... o seu último sorriso?

O grande relógio de ponteiros na cozinha fazia barulhos altos e atordoantes em sua mente. É como se as horas a engolissem.

Morreu em teus braços.

Sabia que não podia abrir um caminho doce para ela. Se na escuridão a avó andava, Yasmin não sabia. Não podia acender uma vela, não podia dizer sinto muito, não podia dizer adeus, não podia fugir. Esperava que ela estivesse em frente de uma lareira aquecida, e lá fora caísse uma branca e gélida neve.

Não impediu que as poucas lágrimas caíssem de seu túmulo amargurado.

-Mamãe, O Humberto também morreu.

O irmão que estava na sala, virou-se, entristecido.

-Mentira... Yasmin que matou ele. Ela afogou o Humberto no tanque.

A mãe, histérica, falava com o pai no telefone, desesperada, tentava achar uma solução.

-Vai ver ela não gostava da tartaruga – Tentava concertar o pai.

-Seu idiota! Aquele bicho era o namorado dela! Vivia conversando com ele como se ele entendesse! Será que você não ouve o que eu digo?! – Gritou a mãe.

-Ele me traiu... Disse que eu estava gorda e feia e que não me queria mais... – Disse Yasmin que ouvia a mãe pelo telefone.

Depois desse dia a mãe também enlouqueceu.

-Mãe... Você está bem?

-Por que você acha que eu não estaria?

-Nada, é que é muito raro ver alguém comendo teia de aranha do canto da parede.

Daniel achava o estilo da garota muito original.

-A minha avó veio me visitar ontem... Ela estava com um vestido branco de quando era nova como eu. Daí ela me contou histórias divertidas e engraçadas.

-Ela sempre vem te visitar? – Perguntou Daniel.

-Acho que você não acredita em mim. Ninguém acredita. Mas eu ouço a voz dela às vezes.

A mãe se tratou de algum jeito. Yasmin não suportou mais um dia.

-Meu amor, você se lembra do dia mais feliz da nossa vida?

-Helena... Foi quando nossa filha nasceu...

-Você já imaginou se esse dia acontecesse de novo?

-Não... Eu não imagino esse dia. Acho que ele vai ser impossível.

Ao contrário do que pensou, não foi impossível. Dez meses depois, e com um grande investimento financeiro, nascia uma nova Yasmin.

Todo domingo, eles passeavam no parque como uma família normal. Mas Helena sentia que de algum jeito as outras pessoas a olhavam como se fosse diferente de todos. E era. A pequena criança que segurava sua mão não era a verdadeira Yasmin. A de verdade não estava neste mundo, e quando por algum instante ela se lembrava disso, queria que a “outra Yasmin” não estivesse viva para poder desejar te-la de volta.

Mesmo tendo o seu filho, é como se tivesse sendo repudiado pela presença da irmã.

-Eu pensei que ela traria felicidade às nossas vidas mas vi que foi pior assim.

-Helena, toda vez que eu vejo a pequena Yasmin, me lembro do seu enterro da nossa filha e toda vez que a ouço falar, eu vejo o quanto... – Via-se uma lágrima desesperada rolando em seu rosto – O quanto que o que fizemos foi errado!

-O que a gente vai fazer? A gente não pode simplesmente... nos desfazer... dela...

-Eu sei disso, ela também é um ser vivo... Mas gostaria que não fosse... Percebo que existe mais maldade nas minhas palavras agora.

-Ela não pode simplesmente continuar a vida que a nossa filha deixou, queria que a Yasmin tivesse a própria vida.


E deste dia em diante, Yasmin era somente Yasmin e ninguém mais. E esta filha descansará na eternidade, assim como é eterna a dor de seus pais.


[perdoem os erros de português! evito corrigir e modificar o texto original, porque quero manter o mais próximo de como o escrevi possível. a série continua...]
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